sexta-feira, 20 de maio de 2005

Perseguição

Lu Minami


Lendo, entre um email e outro, um poema ou outro de Neruda.

Ontem, voltando para casa, avistei seu carro. É claro que na minha mente confusa e dilacerada, as chances do carro ser realmente seu, àquela hora, eram ínfimas.

Não resisti. Acelerei, ignorei os radares, ignorei placas de velocidade, ignorei faróis fechados e ignorei os pedestres. Fui atrás de você e fiquei a uns cinco metros de distância do seu carro. Eu estava escutando uma batida eletrônica nervosa, cantada por alguém que havia morrido antes do CD ser inventado. Aquilo me deixou ainda mais perturbada. Se o novo e o antigo conseguem caminhar juntos daquele jeito, eu poderia caminhar junto ao seu lado?

Partindo desta conclusão – naquele momento, essa conclusão foi o meu melhor álibi – me postei ao seu lado, na mesma velocidade e tentei, num esforço em vão, te ver através do vidro escuro, mas só vi as suas mãos no volante. Não consegui enxergar seu rosto, nem seus olhos. Eu acelerei de novo, passei à sua frente e olhei pelo retrovisor para tentar te ver, mas não consegui. Nesse segundo, saímos do túnel iluminado e tudo voltou à escuridão. E então você me ultrapassou. Rápido, seco, como quem tem pressa de chegar à algum lugar que não seja a minha vida.

Fiquei para trás. Virei à direita e subi a ladeira. Entre buracos, lombadas e valetas, cheguei em casa.
Sozinha.

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