quinta-feira, 21 de maio de 2009

Voltas, cambalhotas e piruetas

Lu Minami


Ouvindo: I'm Old Fashioned
(John Coltrane)


Você chega em casa sem aviso, sem me notar, sem notar a música da minha coleção de jazz que tenho tanto orgulho, sem tirar os sapatos, sem olhar direito e por mais tempo nos meus olhos, sem escovar os dentes, sem trocar de roupa, sem notar o livro de Baudelaire que larguei de propósito no pufe como quem diz: “Me olha, estou aqui por sua causa, seu idiota”.

Chega cagando regra, vomitando sua audácia e cuspindo toda essa arrogância que eu odeio amar. Não nota a garrafa inteira que eu esvaziei enquanto enchia meu peito de uma esperança vil, ordinária e de sexo sem amor, de quem tem esperança que um dia ele se torne algum tipo de loucura ou algo parecido com amor, mesmo sem saber o que isso significa.

E você enxerga essa falha rasgada na minha cara, uma grande cicatriz de quem tem medo de brincar, medo de parecer séria demais, sexy demais, beirando o ridículo, com aquela inteligência de quem devora livros para chegar perto de você, nem que seja por alguns minutos de conversa. Aqueles minutos que você odeia e eu também depois de tanto falarmos em silêncio naquele sofá, naquela cama, naquela lavanderia.

E toda essa minha insegurança acaba no instante em que você levanta, vai tomar banho sem mim, se veste e se despede com um aceno, esperando que eu diga “ah, volta aqui, fica mais um pouco”, para ter o prazer monstruoso e horrendo de dizer “fica pra uma próxima”. Mas eu nunca digo, eu levanto e abro a porta, sonolenta e entendiada, como quem não vê a hora de você ir embora.

Nesse segundo, nós sabemos que o mundo não parou, mas a vida virou, virou do avesso, mostrando algo que não entendemos. Um breve olhar de ternura, que mal é percebido, e continuamos sem saber onde estamos e aonde vamos parar.

E é por isso que você vai chegar um dia em casa novamente, sem aviso e com uma garrafa de vinho vazia na mesinha da sala.
E é somente por isso que eu vou abrir a porta.

7 comentários:

ju mancin disse...

“Me olha, estou aqui por sua causa, seu idiota”.

isso vale pro baudelaire, bukowski, ginsberg, kerouac, orwell, plínio marcos, drummond, pessoa, clarice e até pra chata da fernanda young, além do fellini e do godard e daquele pôster velho, dos ramones, na parede...

é...me aplico à regra...sou um memorial de um idiota!!!

clap clap clap clap clap clap, japa!
adorei!!!

Lu disse...

Faltou o nosso alucinado preferido, Caio Fernando Abreu.

Nunca poderia imaginar que um pé de avenca pudesse ter tanta repercussão. rs...

Detalhe: a porra da avenca estava partindo! rs.

Valeu, Ju.
beijo

Erika disse...

O.O
Primeira vez q entro aqui e já começa com um texto desses? Ai, pera ai que eu nao vou trabalhar nessa ultima hora.. rs

Daniel disse...

Lendo tudo isso me veio sensações que já vivi. Querendo ser quem não souapenas pra ter o que falar com quem amamos.

Isso faz parte de todo um crescimento.

As vezes amamos por dois.
Beijos

Pati disse...

Genial!!!!!

melissa in the sky disse...

Ai gente, eu já tou numa situação delicada, com um texto desses a vontade é de sentar e chorar até o mundo acabar. Ou não.

Beijos!

Lu disse...

Não chore não, Mel e Erika.

rs... po, não era para ser um texto tão triste assim.

É uma constatação da falta de amor. Mas a gente dribla isso e consegue ter um friozinho na barriga que seja.
(mesmo que tenha que colocar um saco de ervilhas congeladas no abdomen)

beijo! Amei as novas visitas!

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