sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O velho novo

Lu Minami


Ouvindo: Killian´s Red
(Nada Surf)


“Na certa, algum desavisado que recebeu de herança ou achou no porão de casa uma caixa com esses discos e achou melhor vender tudo”, pensou enquanto puxava um vinil do Chico Buarque de 1966 novo em folha. Nas mãos, sentiu o cheiro de novo. Parecia ter acabado de sair da prensa. Brilhava sem nenhum riscado. A capa, sem marca de traças e o plástico sem amassado. “8 reais” e levou.

Andando por ali, viu as histórias de gente que morreu ou que ainda estava viva sem saber o motivo. Imaginou o mundo visto por aqueles óculos antigos, amarelados. “O mundo amarelo devia ser mais ensolarado”, foi um pensamento estranho e rápido que ele nem se deu conta, enquanto andava em meio aos pratos e baixelas que um dia serviram comidas quentes, que alimentaram estômagos alheios. Olhou o vestido cinza de fita rosa na cintura. Era de menina nova, vinha com sapatinhos de cetim do mesmo tecido da fita. Presa na gola, um broche de flor de seda que não combinava. Imaginou a menina velha, olhando tristemente um retrato que havia lhe restado.

A boneca antiga e já sem roupas sentava em cima de uma cômoda de madeira muito velha e sem puxadores. Estava suja e com os cabelos empoeirados. Na certa, havia sido violada por algum irmão mais novo, curioso com o corpo feminino numa época em que era proibido desvelar as intimidades. Pensou no menino manuseando os soldadinhos de chumbo, hoje vendidos por uma verdadeira fortuna, embalados um a um. Certamente o garoto tentou descascar as roupas dos soldados também, pelas marcas e ranhuras nas calças azuis dos bonecos.

O cheiro da feira era de mofo em grande parte do trajeto. Anotou mentalmente as dedicatórias em cada livro.

“Com amor e toda a dedicação aos seus estudos, sua mãe, Matilda. Fevereiro de 1944.”
“Lourdes, receba os versos do verão que se aproxima. Com amor, Antônio”

Abriu um sem título, com as folhas pintadas de dourado e viu cair uma flor seca. Guardou, como relíquia, olhando para os lados para certificar-se de que o furto era discreto. Decerto numa tarde, a moça recebeu as rosas ainda frescas e guardou uma apenas no seu livro de versos predileto. Havia manchas das pétalas que foram prensadas e desidratadas contra o peso de quinhentas páginas. Pensou em lágrimas derrubadas entre a página 42 e 58. As orelhas das folhas nessas páginas estavam puídas, como se houvessem sido lidas centenas de vezes. Fechou o livro com respeito, deixou ali entre quadrinhos e livros de astrologia.

Colares que habitaram os pescoços de mulheres que desejavam ser desejadas. Pulseiras que arrebentaram suas contas com a força de um tapa merecido. Oratórios sem verniz, onde hoje habitam somente os cupins e jaziam sem vida todos os pedidos e orações. O espelho do toucador, que já viu rostos demais e preferiu a coberta de fungos ao invés de olhar novamente os olhos vaidosos que nunca mudam.

Havia cheiro de morte em todo o lugar, mas também o vento de lembranças e risos perdidos por entre os anos.
Ele sorriu, com as sacolinhas nos braços, contente por suas novas lembranças adquiridas.



(...)
'cause i left you a note that said

come on out and we'll both get
right off of our heads
and float up off the chair
we'll go on vacation tonight
under a sun of neon light
and i almost love this town
when i'm by your side
(...)

5 comentários:

mademoiselle marchand disse...

envolvimento íntimo com peças raras...

Polinesio disse...

Bem legal, japa.
Passou o sábado na Benedito Calixto, foi?
Beijos,
Poli

Anônimo disse...

hahahahahahahaahahaha

bingo.

rs....
beijo
Lu

Out of tune disse...

Só checkando.

ar disse...

Como tem gente talentosa na internet. Adorei o texto, bem escrito e interessante. Obrigado pela visita ao meu blog, ele anda meio desatualizado mas sempre que puder escreverei lá, voltem sempre.

Beijo
Ariel Rodrigo

arielrodrigo.wordpress.com

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