quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Tempo e Vento

Lu Minami


Ouvindo: Não fale de Maria
(Chico Buarque)


Era um vento carregado de cheiro de rosa antiga. Forte que destelhava os casebres e arrancava as roupas do varal. Constante que marolava o açude e assoviava o canavial.
Ela olhava a lápide cinza de velha, como quem faz serenata para o passado. Deita a mão sobre a primeira letra do nome. Pousa com gentileza e até um pouco de pudor os lábios no relevo da cruz que marca a data do último suspiro.
Uma lágrima com gosto de maquiagem barata e poeira faz sua marca na foto do defunto. Bem no ombro esquerdo.
Ela abre o guarda-chuva. Não chove, mas pressente a umidade no ar que carrega para longe suas cartas dentro da memória.

O coveiro nem dá conta. Faz sol e calor naquele dia empoeirado. Olhou suas mãos amarelas e cheias de calos. Segurou a pá com força. Justo hoje uma exumação. Nesse calor, todo o fedor. Precisava ver isso hoje? Era caso de polícia. Disseram que o morto não morreu dormindo. Morreu matado, de veneno. E sobrava para ele tirar o homem do buraco. Olha para trás, com o suor salgado escorrendo pelos sulcos marcados no rosto, como rios secos de uma vida cheia de morte que ele enterrava todo dia, há tempo demais. Uma sombrinha vermelha sob um vestido preto. Agachada, a moça parecia quase dormir. Coça a cabeça, cospe no chão. Continua a cavar. Vento maldito.

As mãos no volante suavam. Queria logo ir embora, tomar uma cerveja no bar do zizu, jogar truco, palitar a boca. A espera o irritava. Queria ar-condicionado. Mas não tinha dinheiro. Nem o carro estava pago. Mas também, ia chover mulher para andar com ele. E ele pensava no sopro gelado que ia atravessar a blusa das moças. Sorriu, infame. Queria mesmo era vida de marajá, com piscina na casa, para ver as meninas da cidade tomarem banho. A pele branca e as bocas de coração o faziam sorrir com todos os dentes amarelos do outono. Olha por entre as cruzes. Lastima o concreto podre, as cruzes aleijadas, os anjos sem asas. Tanto tempo que não via sua menina de vestido preto. Tanto tempo sem ver nada além daquele pouco terreno. Vê o coveiro coçar a cabeça, dar uma escarrada no chão e olhar para o outro lado, parado, admirando coisa alguma.

É primavera.
Caem os primeiros pingos.
Caem as pétalas mortas de crisântemos.
...




"Não fala de Maria
Maria lembra mar
Que lembra aquele dia
Que não é bom lembrar
Que dia, que tristeza
Que noite, que agonia
Que puxa a correnteza
E traz a maresia
E bate aquele vento
Que lembra um assobio
Que lembra um sofrimento
Que eu não merecia
Não fala não, te esconjuro
Que só de imaginar
O tempo fica escuro
E o espanto agita o mar
Que lembra aquele dia
Que lembra uma canção
Que faz lembrar Maria
E aí não lembro não
A coisa fica séria"

3 comentários:

ju mancin disse...

SO GOOOOOOD!!!

Adorei!

desafinado disse...

Muito bom o contraponto, principalmente a segunta parte do conto...

Que que estou dizendo?rsrs

Gostei muito.

Polinesio disse...

Sacanagem escrever uma história onde o cara morre no final. Isso não se faz com um personagem...
Beijos, Japa.
Poli

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