terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Novo ano, novas regras

Lu Minami

Ouvindo: I can´t explain
(The Who)


Ando sem inspiração.
De novo, moça?
Ah, de novo.

Quando a gente pára de sentir, pára de escrever. E agora que em 2009 tudo vai mudar de jeito, de lugar, de sentir e de falar, tudo vai ficar ainda mais difícil.

Tem ou não tem mais acento? Plurais, como ficam? Trema? Ah, não usava mesmo, sentirei menos. E o hífen? Como vou dizer guarda-chuva ou pára-raio? Tudo junto fica menos dramático, mais corriqueiro. Vai soar errado como guardar a chuva em algum canto ou se guardar dela. Ou parar o raio e guardá-lo para alguma ocasião que exija trovões.

E a falta de acento? Não tem mais na bóia, na clarabóia, na colméia, Zé Colméia! Pára de paranóia que não tem mais acento na nóia e nem na Coréia. Tá jóia, debilóide, faço o que com esse monte de tracinho agudo? Cadê o enfático, o agudo, o grito, o berro?

Tanta coisa nova no jeito de escrever. No jeito de sentir. De saber que todos têm, vêm, vêem e agora? Agora todo mundo vai igualzinho, sozinho ou acompanhado. E sem chapéuzinho.

Voltando ao hífen, escrever tudo junto o que antes era separado é esquisito. Quer dizer, tudo fazia mais sentido com a pausa do tracinho. Parecia que te preparava para o significado da palavra. Sub, por exemplo. Você sabia que era abaixo de algo. E agora sub-humano virou subumano. As ofensas ficaram meio patéticas. Como é que você vai xingar alguém de sub-humano??? [Ae, seu SUBUMANO de merda!]

E tem mais. Juntaram semirreta, contrarregra, antirreligioso, antirrugas (dá mais ruga só de falar), superamigo (parece coisa de amigo que superou trauma). Mas ex-namorado, ex-amante, ex-marido, continua separado. Isso nem a gramática nova juntou. Mas isso não é a gramática que faz, é pura química.

Em 2009, vou ter que mudar o jeito de escrever. Simplificar, ir direto ao ponto, com menos curvas e traços. E eu que amava ditongos, hiatos, acentos, hífens e paroxítonas vou ter que dar um jeito de escrever tudo que há de errado em mim de um jeito novo, para ser lido em qualquer lugar do mundo que fale minha língua. Apesar de eu achar que para tudo isso, não precisa de regra e muito menos de geografia.

Na verdade, acho que tô precisando mesmo é de uma revolução na química e na física mesmo.

6 comentários:

Marcelo Pimenta disse...

nota 10!!! muito, mas muito bom mesmo.

adorei esse trecho:

E tem mais. Juntaram semirreta, contrarregra, antirreligioso, antirrugas (dá mais ruga só de falar), superamigo (parece coisa de amigo que superou trauma). Mas ex-namorado, ex-amante, ex-marido, continua separado. Isso nem a gramática nova juntou. Mas isso não é a gramática que faz, é pura química.

Lu disse...

Ô Pimenta!
Que venha um apimentadissimo 2009!Cheio de contra regras, cheio de surpresas, cheio de análises sintáticas improváveis! rs...

E novas ortografias, melhoradas, bem mais bem-vindas!

jú mancin disse...

e por falar em nova ortografia, adorei essa coisa de mandarem o hífen pro limbo...

adoro antirrugas, contrarregra e antirreligioso...

adoro as coisas fáceis...
adoro as coisas simples...

isso me lembra o belle and sebá, e tds as outras coisas q o belle and sebá me lembra...rs

uma coisa leva a outra!

espero mesmo, japa, q nosso 2009 seja cheio de voltas e mais voltas, de mundos e colisões entre mundos, que seja cheião de magia...

cheio de novos e desconhecidos caminhos, afinal, nosso negócio é "se perder por aí!"

volta logo pra nossa festa!

amo-te!
cuida-te!

Lorena Bobbit disse...

Lú, esse foi seu texto que eu mais gostei!! Acredito que as regras aqui não serão o problema..

em crise [rs] disse...

me diz uma coisa:

ex-amigo dá pra juntar?
ex-viado existe?

Tiago Taron disse...

em duas palavras: "im-pressionante"!

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