terça-feira, 1 de julho de 2008

fragmentos de mim

Lu Minami



Ouvindo: Moanin´
(Benny Golson and The Philadelphians)


Eu nunca sonho com você.

Deve ser alguma lei interna, auto regulamentada por um estúpido sentido de auto-preservação. Ou auto-mutilação. Ou auto-piedade. Mas o que era para me preservar, machucar, me deixar com pena de mim mesma acabou. Teve uma noite em que sonhei com você.

Foi um sonho sujo, sua cara. Lembrar dele me faz gelar o estômago, esquentar as pernas. Alongar os braços a procura do seu pescoço de novo.

Lembro do beijo atravessado, que arrepiou meu sono, enrolou-se aqui dentro de mim e ficou horas lambendo, sugando, você me procurando ali dentro da minha boca. E alguns recortes de imagem vêm à minha cabeça agora, o ensaio da sua melhor risada torta, os cabelos enrolados caindo na cara, os olhos sonolentos, enormes. Cheia de pálpebras que escondem tudo o que você já viu no mundo.

Me lembram as nossas conversas paralelas, no meio do expediente, as sacanagens que a gente diz, promete que vai fazer e nunca fica bêbado o suficiente para cair no chão e finalmente realizá-las. Não, a gente cai na risada, dá um beijo e se despede.

E no meu sonho o beijo que foi longo, junto com o abraço que não me deixou mais com frio e o sorriso de mentira que me lembra o quanto eu ainda posso ser isso que você sempre quis, mesmo tendo que ensaiar muito para chegar ali e te roubar alguns minutos da sua atenção medíocre e apaixonante.

Fico pensando porque nunca te amei. Ou será que te amei desse jeito cínico e encantado, adoravelmente soturno que a gente tem quando está um com o outro?

E se te amei para ser essa musa de encontros sujos e perdidos, escondidos nas dobras de um grande lençol, debaixo de um espelho que reflete o nosso melhor juntos?
E se eu nunca te amei para te ter ao meu lado, segurando a minha mão e me dizendo que tudo vai ficar bem porque esse medo filho da puta que eu tenho de gostar perdidamente de alguém vai passar no instante em que a nossa vida se encontrar de vez?

Ah, adorável calhorda. Não tem motivo nem a condicional de te amar e não pretendo descobrir porque a minha alma se diverte tanto quando falamos sobre esse mundo imbecil que a gente vive, enquanto você se esconde por trás das musicas clássicas intermináveis, e eu no meu rock and roll.

Eu, Jimi.

Você, Bach.

Mesmo em sonho... Ah, como daria certo.

3 comentários:

jú mancin disse...

e não é que era isso que eu queria falar??? rs

viva a sincronicidade!!!

Sunset disse...

Lu, sempre transformando os pensamentos sem resposta e agonias das meninas em belos textos.

=)

Daniel disse...

Demais!!

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