sexta-feira, 14 de março de 2008

Lust for life

Lu Minami

Me chamaram há uns meses para escrever num site engraçado. Se chama latrina literária [http://latrinaliteraria.blogspot.com] e o desafio era escrever uma história nos cenários de Tarantino´s Mind.
Deu no que deu aí embaixo.

- - -

Tocava no recinto Barry White.
Ela estava com a roupa da semana passada, que ainda cheirava bem. Mantinha o punhal perto da coxa esquerda. Era destra, mas preferia assim.
O cabelo era vermelho, com mechas castanhas.

Andou pelo bar e atraiu os olhares vagabundos e mal-cheirosos. O punhal arranhava a sua pele, com prazer. O salto que fazia tremer as tabuas velhas de madeira do chão marcava passos determinados.

1 dolar e a jukebox se mexeu. Virou as capas dos discos, enquanto sentia cada olhar cravado em sua traseira. Sorriu e a lamina do punhal fez um corte mais profundo em sua coxa.

Escolheu Lust for Life. Pensou em matar o Iggy Pop, mas achou prudente fazer amor com ele antes. Pensou em David Bowie. Pensou em Al Green. Cantarolou Quincy Jones.

"With the liquor and drugs...."
Virou-se.

"Yeah, something called love..."
Mirou todos no balcão, afastou uma mecha castanha dos lábios. Sorriu brevemente.

"Well, that's like hypnotizing chickens."
Um deles se levantou, com as suas mãos abertas, ávidas para agarrar seu decote.

"Of course, I've had it in the ear before."
Ela segurou as duas mãos. Levantou uma sobrancelha. "Ainda não"

"Yeah, I'm through with sleeping on the sidewalk"
O sangue jorrou. O homem segurava ainda na mão esquerda sua orelha direita.
O punhal pingava. A pedra no cabo já era rubi.

"Your skin starts itching once you buy the gimmick"
O punhal girava. Voaram dedos, que pousavam em copos de rum vazio. A poeira do chão virou um creme escarlate. Brilhava.

"about something called love"
A estante de bebidas caiu por cima do barman, que chorava e pedia por sua mãe. Suas duas mães que delicadamente faziam vestidos para ele cantar à noite. Gritava. Arremessava garrafas contra os cabelos vermelhos. Ela sorria, sorria, dançava.

"Yeah, a lust for life. I got a lust for life"
Ria muito, dançava muito. Excitada, lambeu uma gotinha que pendia acima dos lábios. Gosto de metal, ela enlouquecia. Subiu no balcão, dançava, arremessava cada braço e cabeça longe. Ouvia o estalar de ossos. Parecia criança com sua primeira boneca e sentia aquela surpresa bem-vinda ao constatar que pode arrancar os braços e pernas dela.

"I got a lust for life
Lust for life
Lust for life
Lust for life
Lust for life"

Não havia mais música. Não havia ninguém. A jukebox retirou o disco, pediu mais 1 dolar.
Ela largou 10 dolares no balcão e pegou a garrafa de tequila quebrada.

"Obrigada, mas eu só queria saber qual a rota para Denver".

2 comentários:

Polinesio Serial Killer disse...

Excelente, Japa.
Carnificina é tudo na vida de uma pessoa.
Beijos

Thaís Dourado disse...

A-do-rei.

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