terça-feira, 29 de junho de 2010

.de.caso.com.o.caos.

mademoiselle marchand

d°_°b fire, jimi hendrix

depois de algumas doses fica tudo tão claro.

um cigarro queimando no cinzeiro, o copo suando algo entre o mel e o fel... a mente vaga entre dois, talvez três, mundos... sem espaço para o que é real...

a chuva que bate na vidraça musicalmente deixa no ar um cheiro fresco de mágica que está por vir. mágica que se desenha no ar, entre nuvens de fumaça que vagueiam rubro-verdes.

a indescritível mágica das sombras. paixão ou algo mais. o mistério de olhos que estranhamente me seguem no escuro. olhos que, para meu absoluto deleite, me desejam no escuro.

bocas que se tocam, mãos que se beijam. sussurros entre silêncios.

te quero!

como um gato à minha espreita no breu da noite…

não te esperava assim de repente.

era esse o momento de me guardar. de me acalmar. meus cigarros não são tantos assim.

eu não quero querer o que não devo ter. busco em mim, algo que me proteja do que eu desejo....

mas desejo. e contra mim não tenho forças. sinto-me invadida... delicio-me com tanta falta de decoro. são olhos que brilham no escuro que me buscam e mãos que me caçam e lábios que me mordem. decifra-me e devora-me.

terça-feira, 8 de junho de 2010

little wing

Lu Minami

Ouvindo: Billie´s Blues
(Billie Holiday)



Me fez chorar.
Ser lembrada do quão livres já fomos um dia.

Me fez cantar.
Lembrar de um diálogo com duas frases que já dizia tudo.

Me fez amar.
Saber que sempre estará ao meu lado, mesmo quando parece já ter me esquecido.

Nossas coisas viverão para sempre dançando enquanto não voltarmos para lá. Nossas conversas vão bailar um tango eterno, no passo certo e certeiro. Os sorrisos como uma valsinha. As ofensas que vão cirandar ao nosso redor.

Só você sabe o quanto tenho de coração, medo e coragem nessa vida. O coração só bate dentro da gente e tem vida própria. Não sei porque a gente insiste em aprisioná-lo. Dia desses, se torna selvagem, morde, machuca e sai correndo de dentro do nó do peito.

Puro esconde-esconde.
E sem chance de salvar o mundo.

terça-feira, 18 de maio de 2010

.rythm.&.blues.[e um olhar desconcertante]

ju mancin

d°_°b magical mistery tour, the beatles

[something in the way she moves

attracts me like no other lover

something in the way she woos me]

preciso de uma estória. minto! história. uma outra história, uma nova…

algo que diga mais ou menos que um dia eu tava ali parada, mergulhada na inércia de um beco escuro, cigarro aceso, café na mão direita, coração no canto esquerdo, batendo lento, fraco...

pois bem. quando a gente tá ali pasmando no beco escuro, a gente não espera que nada aconteça, que ninguém apareça.

então eu ali, parada no beco, fumando um cigarro e bebendo café, quase sem coração e esperando ninguém. ouvindo cada sussurro silencioso saído do lado de lá. pequenos fragmentos de vida lançando-se inocentemente pelas frestinhas das paredes das casas das criaturas que habitam o lado iluminado.

uma ou outra alma perdida que passa de tempos em tempos, pouco me chama a atenção. são apenas fragmentos de gente. mutiladas por suas vidas desinteressantes. por seus segredos mal guardados. por seus desejos repimidos. pequenos espectros infelizes em busca de um veneno qualquer, que ainda me atraem um pouco. ao menos encaram o lado negro em busca de um trocado…

desprezo todo o resto. as pessoas e suas salas de jantar. seus cachorros e suas filhas. suas casas, seus balaustres. suas pequenas heranças de família, que incluem apenas misérias humanas. mais um trago e sinto o sabor amargo de uma vida em sociedade. e nauseada tento afastar a lembrança dessa gente que vive pela metade, comendo uma saladinha pra matar a fome. infelizes os homens que perderam o paladar. desprezo-os, especialmente, porque entre seus bens tão valiosos não estão um vinil e uma vitrola. eles não sabem dançar…

tateio meus bolsos em busca de uma dose, só mais uma…

.

.

pequenas bailarinas flutuam em meio à fumaça e bem ali, diante dos meus olhos estarrecidos, me lembro de um mundo qualquer. onde eu vivo às vezes. colorido. sinto saudades de casa. do jardim. do cheiro de mato molhado, do balanço, e da música que parece sair da alma de um gênio com coração de menino. bailarinas-borboletas que sopram em minhas palpebras, pequeninas porções de ilusões, meus olhos se fecham, por horas, creio eu… aos poucos, e retomando a [in]consciência começo a pulsar vida, de dentro pra fora, o coração em choque parece querer gritar e bater. forte, descompassado e a razão, num último suspiro, arrisca um palpite, infeliz, do ponto de vista de minha conselheira insensatez…

segunda-feira, 17 de maio de 2010

.lupicínio.rodrigues.

ju mancin

 

d ¨-¨b nervos de aço, lupicínio rodrigues

 

 

Virada Cultural 2010.

#etenhodito

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Colorful

Lu Minami

Ouvindo: Happiness
(Goldfrapp)

Ela era uma escultora. Esculpia os sonhos ao seu redor para que tomassem forma enquanto cantava. Fazia daquilo a sua realidade, fazia o real se tornar uma esquete de amor próprio e de amor pela cidade. Ela era escritora. Ensaiava seus diálogos quase sempre definitivos, quase sempre inacabados. Ela parecia quase nunca ter razão nessas discussões, mas sempre terminava em um longo abraço como quem se despede para sempre. Ela era compositora. Buscava ritmos no seu andar, no seu amar e no seu sorrir. Ela era poeta. Andava descalça nas folhas caídas da calçada, trovava a dor de amar, a solidão de pagar contas e dirigir sozinha na madrugada. Ela era autista. Fechava o mundo fora do corpo e olhava para dentro de seus buracos, seus ocos, seus vazios... cantava baixinho e recitava poemas em silêncio com o olhar perdido. Ela era florista. Pintava as flores de vermelho e as entregava para qualquer coração pálido, colhia mudas nas entrelinhas de cada conversa pela metade e jurava regá-las até o fim. Ela era curandeira. Olhava a palma das mãos e tocava as pessoas com o real desejo de curar a si mesma. Ela era costureira. Sabia coser como ninguém seus remendos para enfiá-los num bolso furado e cobrir-se com um capuz puído. Ela era puta. Exibia seu corpo como quem leiloa um pedaço de carne meio fresco, meio passado. Ela cobrava o que oferecia em moedas de olhares e sorrisos. Ela era louca. Gritava, descabelava como ventania e ardia eternamente, sem tocar os pés no chão, sem tirar os olhos do céu e da chuva. 


Ela era o amor. 

Cheia de tudo e nada. 

Transbordada de coragem e esperança. 

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