quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Alice e a chuva

Lu Minami

Ouvindo: As vitrines
(Chico Buarque)


Seu cabelo tinha cheiro de terra molhada. O vestido, cada verão mais curto. No rosto limpo, maltratado de sol, sustentava o par de olhos negros que trazia como única lembrança o campo desolado, a terra laranja, o dia amarelo, as árvores marrons. Não lembrava de ter visto tanta chuva cair assim do céu, devagar primeiro e depois pesada, tão pesada que teve medo de doer a pele nua quando as gotas batessem no corpo.
Olhava o vidro atentamente, colocou cada dedo seu sobre uma gota que batia na janela do ônibus e sentiu saudade de casa. Sentiu saudade do chão seco e quente, das frutas maduras antes de cair, das flores murchas de calor.

Pensou se sabia o que fazia, se fazia o que estava pensando desde lá em cima, desde casa. A idéia que nasceu numa noite depois de ter visto a cidade pela primeira vez, pela televisão e o rosto que há muitos anos não via, coberto pela blusa. Ele bem que tentou, mas não pôde se esconder de mim, pensou iludida e doce. Os homens de cinza, cor de céu antes da chuva, tinham-no jogado na parte de trás de um carro e ela sabia, tinha certeza que era ele. Era sim, seu coração franzino avisou que era. Fugira de casa, com uma sacolinha de pano que a mãe usava para trazer mandioca, que trazia uma foto e uns poucos bijus. O dinheiro, tinha guardado desde o 12 anos. Não era muito, pois fazia pouco que decidira guardar para comprar um novo vestido. Entrou no ônibus decidida, sem dormir, sem comer, só pensando no momento em que seus pés pisassem o chão da cidade e sua busca começasse.

Andou por igrejas destruídas, calçadas perfuradas e ouviu perguntas que não entendia. Parecia ter ficado surda ou que havia chegado em outro país. As pessoas corriam, subiam e desciam de ônibus que não paravam de chegar, formando uma serpente esquisita, cheia de janelas e pessoas. A cobra com fome, que devora toda a gente. Parou frente a uma caixa de metal que cabia umas 4 pessoas dentro. Olhou e viu foto, palavra que não sabia ler, livro que nunca ia passar a mão na capa e cheirar a folha nova. Jornal, revista, doce, chiclete, cigarro, mulher nua e homem nu em algumas. Corou de vergonha. Mas se encheu de coragem e olhou cada foto, cada jornal, cada capa de revista, procurando pelo homem dela que tinha visto na TV.

Continuou andando porque uma hora a cidade acaba, pensou ela, e eu encontro um lugarzinho para descansar, posso até fazer biju para me sustentar. E a cidade continuou perseguindo sua visitante, mostrando ruas iguais, mas diferentes. Esquinas cada vez mais distantes, homens que lhe faziam perguntas esquisitas, que ela não entendia, mas sabia serem indecorosas. Sentiu fome e sede, mas ninguém quis seus bijus em troca de comida e água. Seu vestido se tornara cada dia mais triste e gelado. As pernas sujas e os braços melados de suor, lágrimas e poças.

Até o dia em que encontrou.
Encontrou alguém que a aceitou. Em troca de comida, água e um chão para dormir, ela preparou seus bijus e ofereceu seu corpo à violência. Todos os dias, hora após hora, em esquinas iguais, mas diferentes. Depois de chuva e de sol e o vestido novo, que era curto sem tantos verões, que a deixava com frio, sem sorriso e com vontade de beber algo que a fizesse esquecer da saudade de sua terra, do marido e das primeiras esquinas.


(...)
Nos teus olhos também posso ver

As vitrines te vendo passar
Na galeria, cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão.

Um comentário:

Polinesio disse...

Alice na cidade das maravilhas. Maravilhas ao contrário, mas, maravilhas.
Beijos, Japa.

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