quinta-feira, 29 de abril de 2010

Colorful

Lu Minami

Ouvindo: Happiness
(Goldfrapp)

Ela era uma escultora. Esculpia os sonhos ao seu redor para que tomassem forma enquanto cantava. Fazia daquilo a sua realidade, fazia o real se tornar uma esquete de amor próprio e de amor pela cidade. Ela era escritora. Ensaiava seus diálogos quase sempre definitivos, quase sempre inacabados. Ela parecia quase nunca ter razão nessas discussões, mas sempre terminava em um longo abraço como quem se despede para sempre. Ela era compositora. Buscava ritmos no seu andar, no seu amar e no seu sorrir. Ela era poeta. Andava descalça nas folhas caídas da calçada, trovava a dor de amar, a solidão de pagar contas e dirigir sozinha na madrugada. Ela era autista. Fechava o mundo fora do corpo e olhava para dentro de seus buracos, seus ocos, seus vazios... cantava baixinho e recitava poemas em silêncio com o olhar perdido. Ela era florista. Pintava as flores de vermelho e as entregava para qualquer coração pálido, colhia mudas nas entrelinhas de cada conversa pela metade e jurava regá-las até o fim. Ela era curandeira. Olhava a palma das mãos e tocava as pessoas com o real desejo de curar a si mesma. Ela era costureira. Sabia coser como ninguém seus remendos para enfiá-los num bolso furado e cobrir-se com um capuz puído. Ela era puta. Exibia seu corpo como quem leiloa um pedaço de carne meio fresco, meio passado. Ela cobrava o que oferecia em moedas de olhares e sorrisos. Ela era louca. Gritava, descabelava como ventania e ardia eternamente, sem tocar os pés no chão, sem tirar os olhos do céu e da chuva. 


Ela era o amor. 

Cheia de tudo e nada. 

Transbordada de coragem e esperança. 

.blasè.

ju mancin

d°_°b sobre o frio, supercordas

 

essa coisa que olha sem ver.

que quer sem querer.

que vai só por ir.

que ri sem notar.

que não ousa chorar.

nem amar.

terça-feira, 16 de março de 2010

.penhasco.

ju mancin

d°_°b god help the girl, god help the girl

 

“e apenas ser mais um na sua cama, por uma noite apenas

e nada mais”

meus pés descalços passeantes à beira do abismo parecem não se importar com o risco que correm. displicentes como quase tudo aquilo que me encanta, não se importam com o risco a que me expoem. meus pés descalços ansiosos por um pouso suave, parecem não notar o caminho de cascalhos que se trilha sob nós e parecem saber onde vão, embora eu saiba que eles sequer imaginam os perigos a cada vez que se lançam irresponsavelmente para a boca do precipicio.

minhas noites de sono são insônias delirantes.

passo o dia, quase sempre, sonhando acordada com pequenas verdades quase não-palpáveis.

numa daquelas certas manhãs em que se acorda de sonhos intranquilos, de sobressalto, sem saber se foi sonho ou realidade. sem saber se meu desejo é crime. se meu medo é fato. banhada em sentimentos. inebriada. penso em borboletas vermelhas feito sangue. penso em tristes e negras borboletas pairando sobre nós, ditando as regras de uma loucura tão lúcida quanto a das ditaduras. e em lindas borboletas roxas, que nos unem num desenho imaginário como cola invisível e que num toque de mágica, voltam a avermelhar-se em tom de sangue.

PERIGO! ALTA TENSÃO!!!

quinta-feira, 4 de março de 2010

je t’aime… moi non plus

ju mancin

d°_°b intoxicated man, serge gainsbourg

é que às vezes, na falta do que falar eu falo.

e outras vezes, quando há muito a dizer, eu calo.

hoje me contento com a música que canta aqui dentro, ao redor, em toda parte…

é como se sol brilhasse de dentro pra fora.

no meu silêncio tem saudade. tem vontade. tem muito mais que mentira e um toque sincero de verdade.

é como se meu silêncio fosse o mais puro dos versos impronunciáveis de um poeta maldito.

meu coração duro de barro seco, se desmancha por um poeta. da vila, do porto, do cais…

quanto vale meu segredo?

tenho mil razões para partir. só uma me faz ficar…

as paredes da nossa casa transparente, pintadas de verso e prosa e cores, que não fossem transparentes, nos rederiam um belíssimo pôr-do-sol!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ensaio sobre a nossa preguiça

Lu Minami

Ouvindo: No one loves me & neither do I
(Them Crooked Vultures)

Caminhávamos por um desses caminhos estreitos cheios de barro e matos daninhos que podiam ou não irritar a pele. Naquele momento, a única coisa que irritava e ardia febril em mim era o seu andar lado a lado. Me incomodava muito essa coisa do caminhar juntos para a mesma direção, para viver junto por tempo determinado de antemão. Na verdade, não era o viver que me incomodava. Era a presença constante e enorme da sombra que você fazia em cima de mim e a minha, diminuta, que se projetava sobre seus olhos. Não podia vê-los mais. 


Hoje, o silêncio como companhia bastarda das nossas mãos entrelaçadas. Essa quietude de uma tonelada, abortada por não suportar viver dentro da gente, serpenteando por entre as pernas e em tudo o que faz cheiro na minha pele. E não há nada nessa caminhada que justifique a calma que sua respiração provoca. Nem porque meus olhos sempre fechados e insones ficam tão alertas quando percebo essa tranquilidade, esse sono. Presta atenção, eu não te amo não. Não por defesa, mas por preguiça. A preguiça estirada da tua sombra me livrando desse calor de matar o verão e os bichos que voam para morrer em nossa janela. Essa preguiça que dá sede e que a gente mata no copo transparente um do outro, encostado em portas de bar e em ruas sujas da nossa cidade castigada por essa chuva sem trégua, que barreia ainda mais toda a terra firme que eu juntei no meu peito por tanto e tanto tempo. Respiro. Uma preguiça imensa de dar forma, definir e tornar um algo único, feito pela minha e pela sua mão... uma preguiça tão grande que só me resta andar e andar até a próxima sombra, o próximo gole, o próximo verão.

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